segunda-feira, 11 de março de 2013

Mestre Finezas de Manuel da Fonseca




 
   Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:

- Só a barba.

Ora é de há  pouco este meu à-vontade diante de Mestre Ilídio Finezas.

Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente à parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.

Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.Como o tempo corria devagar!
 
 
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer-me, não podia bocejar sequer. - «Está quieto, menino» - repetia mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: - «Assim, quieto!» - Os pedacitos de cabelo espalhado pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.

                E eu – sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía – era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de Mestre Ilídio Finezas.

Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáticos da vila.

                Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com

cuidado. Calçava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés.

Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa frente e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação.

                Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconteciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no último acto, com Mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.

                Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.

                Eu arrepiava-me todo. Uma noite mestre Finezas morreu logo no primeiro ato. Foi um desapontamento. Todos criticaram pelo corredor, no intervalo: - «O melhor artista morrer mal entra em cena…! Não está certo! Agora vamos gramar quatro actos só com canastrões!» - dizia o doutor delegado a meu pai

                Mas a cena tinha sido tão viva e a sua morte tão notada durante o resto do espectáculo que, no outro dia, me surpreendi ao vê-lo caminhando em direção à loja.

 
                Ora havia também um outro motivo para a minha admiração. Era o violino.
Mestre Finezas, quando não tinha fregueses, o que era frequente durante a maior parte do dia, tocava violino. E muita vez aconteceu eu abandonar os companheiros e os jogos e quedar-me, suspenso, a ouvi-lo, de longe.

                Era bem bonito. Uma melodia suave saía da loja e enchia a vila de tristeza.

Passaram anos. Um dia parti para os estudos. Voltei homem. Mestre Finezas é ainda a mesma figura alta e seca. Somente tem os cabelos todos brancos.

                Olha bem para mim, - pede-me às vezes – olha bem e diz lá se este é o mesmo homem que tu conheceste?

Finjo-me admirado de uma tal pergunta. Procuro convencê-lo de que sim, de que ainda é. Compreende as minhas mentiras e abana docemente a cabeça:

                - Estou um velho, Carlinhos…

Vou lá de vez em quando. A loja está sempre deserta. As mãos muito trémulas de mestre Finezas mal seguram agora a navalha. E também abriram, na vila, outras barbearias cheias de espelhos e vidrinhos, e letreiros sobre as portas a substituírem aquela bola com um penacho que mestre Finezas ainda hoje tem à entrada da loja.

                Mestre Finezas passa necessidades. Vive abandonado da família, com a mulher entrevada, num casebre próximo do castelo. Eu sou o seu único confidente e um dos raros fregueses.

                Algo de comum nos aproximou. Ilídio Finezas sonhou ser um grande artista, ir para a capital, e quem sabe se pelo mundo fora. Eu falhei um curso e arrasto, por aqui, uma vida de marasmo e ociosidade. Há entre mim e esta gente da vila uma indiferença que não consigo vencer. O meu desejo é partir breve. Mas não vejo como. E, quando o presente é feio e o futuro incerto, o passado vem-nos sempre à ideia como o tempo em que fomos felizes. Daí e ser o confidente de Mestre Finezas.




Leia aqui o conto na íntegra.

 

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